Tradutores: Ana Paula Pires dos Santos, Luis Eduardo Fontes


 

8 de junho de 2020

Professor Tim Dixon
Professor de Futuros Sustentáveis no Ambiente Construído, Universidade de Reading

Em nome da Equipe do Oxford COVID-19 Evidence Service Team

Universidade de Oxford

Correspondência para [email protected]

 

PARECER

 

  1. As áreas urbanas estão sofrendo as consequências da crise de COVID-19.
  2. A COVID-19 está tendo um grande impacto na população urbana pobre.
  3. A COVID-19 e a crise da mudança climática apresentam grandes oportunidades para repensar o ‘futuro urbano’ para as cidades.
  4. A visão da cidade, com um forte elemento participativo, deve ser parte deste processo.

 

ANTECEDENTES

A crise da COVID-19 impactou cidades em todo o mundo. Os piores efeitos da doença estão intimamente ligados às áreas urbanas, onde as taxas de mortalidade tendem a ser mais elevadas devido a uma complexa combinação de fatores, incluindo densidade populacional, conectividade nacional e internacional e resposta de saúde pública. No Reino Unido e nos Estados Unidos, por exemplo, as principais áreas urbanas têm taxas de mortalidade mais elevadas do que outros tipos de assentamentos, e também tem sido considerado que o tamanho da cidade tem um papel importante na determinação das taxas de infecção.

Ao longo da história, crises epidêmicas e pandêmicas (por exemplo, a cólera asiática (1826-37) e a gripe espanhola (1918-19)) afetaram com frequência as cidades, mas elas se recuperaram, muitas vezes na crista do rápido crescimento econômico.  Muitas vezes, porém, são os ‘pobres urbanos’ que mais sofrem de imediato na pandemia – a epidemia de cólera de Londres em 1854, por exemplo, teve um impacto econômico substancial sobre aqueles que viviam mais perto do surto durante uma década ou mais. Já estamos vendo um impacto semelhante com a COVID-19, pois o Banco Mundial prevê que seus efeitos levem cerca de 49 milhões de pessoas para a pobreza extrema em 2020 (Sanchez-Paramo, 2020). Os líderes e tomadores de decisões das cidades do norte e do sul do mundo enfrentam, portanto, uma ‘tempestade perfeita’ de como melhor lidar com o planejamento e a gestão da recuperação da COVID-19, juntamente com as pressões existentes de mudanças climáticas, esgotamento de recursos e desigualdades socioeconômicas persistentes.

 

Conselho de Saúde de Londres procurando por cólera na cidade (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:London_Board_of_Health_searching_the_city_for_cholera_Wellcome_V0010896.jpg)

QUAL É A RESPOSTA DAS CIDADES À CRISE ATUAL?

As crises também apresentam oportunidades para as cidades, no entanto. As evidências mostraram que a qualidade do ar melhorou nas cidades ao redor do mundo à medida que a atividade econômica reduziu, o tráfego de veículos diminuiu e mais pessoas trabalharam em casa. Isso também levou a um impacto potencialmente direto e mensurável na saúde das pessoas nas cidades, como mostraram os pesquisadores na China. Assim, tem havido apelos crescentes para uma ‘recuperação econômica verde’ da crise e um enfoque contínuo em um ‘novo negócio verde’ na Europa e nos EUA, mas o perigo é que na pressa de impulsionar a recuperação econômica e com os preços do petróleo a níveis tão baixos, possamos ainda regressar à ‘BAU´. No entanto, também já estamos vendo líderes de cidades usarem o confinamento para implementar medidas que incentivam o uso da bicicleta e da caminhada (por exemplo, Londres, Milão, Cidade do México, Paris, Bogotá e Nova York) e até mesmo ambições de redesenhar as economias das cidades (Amsterdã).

Amsterdã (Jorge Ryan: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Amsterdam_-_Boat_-_0635.jpg)

FUTUROS URBANOS

Focalizando o norte global, isto levanta a questão de como as cidades poderiam ser depois da crise de COVID-19 à medida que começam a emergir do confinamento. Poderia a pandemia mudar a forma como as cidades são concebidas e como deveriam se desenvolver no futuro? Continuará a haver mudanças de curto prazo no estilo de vida, no trabalho e nos padrões de deslocamento, e o que poderíamos ver cada vez mais, e o que é mais desejável do ponto de vista da sustentabilidade, é que os líderes das cidades usem a crise atual, por exemplo, para planejar e gerenciar como as ambições de carbono zero serão cumpridas no longo prazo, e como as cidades podem se tornar mais sustentáveis em termos ambientais, sociais e econômicos. Afinal, para que o aquecimento global seja limitado a 1,5 graus Celsius, todas as cidades precisam atingir o zero líquido até 2050, no máximo. Muitas cidades (atualmente 1.496 jurisdições em 30 países) já tinham declarado emergências climáticas antes da COVID-19 impactar a vida das pessoas e, mais perto de casa, no Reino Unido, cidades como Oxford e Reading não só expuseram suas visões para 2050, mas também têm estratégias de mudança climática em vigor ou em revisão.

Reading 2050 Workshop

Em última análise, o carbono zero e a gestão de uma ‘transição justa’ continuam a ser desafios enormes para as cidades, mas conectar estes objetivos a uma nova forma de pensar o futuro (o que, de fato, poderá ser nomeado ‘futuros urbanos’ (Dixon e Tewdwr-Jones, 2021) será fundamental para que as cidades se tornem globalmente mais resilientes, mais sustentáveis e mais inteligentes no uso da tecnologia. A aprendizagem das lições da COVID-19 deve ser usada para nos ajudar a aumentar a resiliência, e também para planejar e gerenciar futuras pandemias e choques. Mas isto significa construir e reimaginar visões de como queremos que as cidades sejam até 2030 e para além de 2050. Reunir as principais partes interessadas (sociedade civil, indústria, governo e academia) para garantir que essas visões das cidades sejam coproduzidas e participativas, e sustentadas por um roteiro para o futuro, será crucial para o sucesso.

 

REFERÊNCIA ADICIONAL

Dixon, T., Tewdwr-Jones, M. (2021-forthcoming) Urban Futures: City Foresight and City Visions. Policy Press/Bristol University Press.

AUTOR

Tom Dixon é Professor de Futuros Sustentáveis no Ambiente Construído na Universidade de Reading. Ele é colíder de novas pesquisas no Thames Valley Live Labs financiadas pela ADEPT/DfT, é copresidente da Reading Climate Change Partnership e faz parte do conselho da indústria de mudanças climáticas do Wokingham Borough Council. Ele também colidera o programa de visão da cidade Reading 2050.