Tradutores: Ana Paula Pires dos Santos, Luis Eduardo Fontes


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25 de junho de 2020

Olivia Duncan
Arquiteta, Mestrado em Desenvolvimento Urbano Sustentável, Universidade de Oxford

 

Em nome da Equipe do Oxford COVID-19 Evidence Service Team

Universidade de Oxford

Correspondência para [email protected]

 

PARECER

Uma abordagem de “coalizão” entre estrategistas urbanos é um elemento chave para mitigar a atual crise da COVID-19 e as futuras epidemias. Cada contexto urbano com diferentes densidades populacionais e de construção requer abordagens de mitigação específicas para o contexto, incluindo o reconhecimento do impacto urbano sobre o ambiente natural ou biofísico. A COVID-19, combinada com os impactos negativos da fragmentação generalizada do habitat resultante dos padrões de urbanização, exige agora uma reforma dos conhecimentos especializados em desenvolvimento urbano. Abordagens colaborativas para proteger os seres humanos de futuras epidemias são essenciais para o “futuro urbano”;

Mais pesquisas e experimentos em biomimética representam uma grande oportunidade para mitigar a contaminação de superfícies.

CONECTANDO A URBANIZAÇÃO RÁPIDA, OS HABITATS FRAGMENTADOS E O AMBIENTE CONSTRUÍDO PÓS-COVID

A atual pandemia e as rotas de transmissão do SARS-CoV-2 ainda estão sendo pesquisadas globalmente, e as cidades mais densas e pobres do Sul Global são provavelmente as mais afetadas. No meio de grande incerteza, um estudo publicado recentemente reconhece que, embora as rotas de transmissão do vírus não estejam bem caracterizadas, pesquisas sugerem que a sua propagação ocorre através de contato físico, gotículas e vias aéreas. Considerando que a maioria dos seres humanos atualmente são urbanos, e geralmente passam mais de 90% do seu tempo em ambientes fechados – assumindo-se que o tempo restante é passado em espaços públicos compartilhados – um questionamento sobre o papel do ambiente urbano no apoio ou supressão da propagação parece inevitável.

Diante do advento de uma doença infecciosa, a preocupação mais apropriada de qualquer governo municipal, antes de tudo, é provavelmente controlar a propagação dessa doença. A história humana fornece uma visão das abordagens anteriores para controlar a propagação extensiva de infecções desconhecidas; e os nossos equivalentes medievais encontraram uma pandemia mais devastadora do que a nossa atual COVID-19, conhecida como a Peste Negra, pois há evidencias de que a população europeia foi quase dizimada por ela.

A maioria das estratégias atuais de supressão e mitigação requer um período de testes e um monitoramento rigoroso do comportamento desconhecido do vírus. Neste contexto, estrategistas urbanos e epidemiologistas poderiam formar um grupo de coalizão de entusiastas da “imunidade do rebanho” e apoiadores rigorosos da supressão, dependendo da densidades urbana das suas cidades e nível de desenvolvimento econômico. É bem reconhecido que, dada a alta taxa de mortalidade da COVID-19 em comparação à gripe, uma adoção precoce da estratégia de “imunidade de rebanho” – onde o nível de imunidade da população seria alcançado organicamente – significaria que aproximadamente 0,8% do total da população mundial provavelmente será morta antes que uma vacina esteja acessível à comunidade, excluindo o excesso de mortalidade resultante da capacidade de qualquer sistema de saúde de lidar com o alto número de infecções.

Da história ao mundo acadêmico atual, há muitas evidências de métodos bem sucedidos e fúteis  para combater doenças infecciosas no nível da cidade: programas de sanitização em massa;  gerenciamento de resíduos urbanosventilação natural cruzada em edifícios, bem como medidas comportamentais como quarentena; distanciamento social rigoroso; toque de recolher e o uso obrigatório de máscaras faciais.

Desde os anos 70, tem havido maior atenção ao papel da urbanização na perturbação dos habitats naturais, gerando poluição global e, posteriormente, sua contribuição para o surgimento de pandemias. Independentemente de alertas e validações de pesquisas sobre o impacto da mudança climática no planeta, as cidades continuaram a crescer e a invadir ecossistemas biofísicos causando, entre outras consequências negativasfragmentação do habitata destruição de variedades de animais e plantas que hospedam vírus potenciais. Por exemplo, a urbanização na China aumentou exponencialmente de 17,92% para 52,57%, no período entre 1987 e 2013 e está previsto que aumente para 70% até 2030. Esta rápida urbanização é evidente na cidade de Wuhan, marcada pela deterioração de sua cobertura vegetal e crescimento de áreas impermeáveis como resultado do desenvolvimento de terrenos residenciais entre 1991 e 2013. Entre muitos indicadores, a afirmação de que Wuhan foi a fonte da primeira infecção humana do SARS-CoV-2, faz com que seja apropriado que este evento provoque uma reavaliação não apenas do paradigma de crescimento econômico, mas da profunda necessidade de uma abordagem multidisciplinar da expansão urbana, integrando a pesquisa nas ciências médicas com o desenvolvimento urbano sustentável. A necessidade de colaboração entre profissionais de saúde de todo o mundo, epidemiologistas, antropólogos e ativistas comunitários urbanos no processo de planejamento urbano parece inquestionável.

No nível arquitetônico, a demanda por infraestrutura para suportar uma qualidade de ar ótima dentro dos edifícios, e para promover superfícies não contaminadas, exige mais investigação e soluções inovadoras. As estratégias de gerenciamento AVAC (Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado) combinadas com um pioneiro revestimento de superfície inspirado em biomimética desempenham um papel importante na proteção dos ocupantes de um edifício contra a exposição a aerossóis infecciosos e transmissão de contato. Os edifícios de serviços de saúde parecem ser o foco da literatura cientifica AVAC, e geralmente apoiam a proposta de que uma mistura de fluxo de ar, pressurização de salas e projetos de ventilação apropriados, juntamente com controles de temperatura e umidade relativa, é eficaz no controle da transmissão. Enquanto o filme de proteção de superfície SharkletFilm disponível comercialmente proporciona inibição bacteriana em superfícies ambientais de alta resistência, apoiando a redução da desinfecção de superfícies a base de produtos químicos, o desenvolvimento de uma solução antiviral universal para superfícies ainda está para ser alcançada.

Fim.

 

Aviso: o artigo não foi revisado por pares; ele não deve substituir o julgamento clínico individual e as fontes citadas devem ser verificadas. As opiniões expressas neste comentário representam as opiniões dos autores e não necessariamente as da instituição anfitriã, do NHS, do NIHR, ou do Departamento de Saúde e Assistência Social. Os pontos de vista não são um substituto para o aconselhamento médico profissional.

AUTORA

Olivia Duncan é uma arquiteta e urbanista com Mestrado em Desenvolvimento Urbano Sustentável pela Universidade de Oxford. Tendo uma grande experiência internacional em arquitetura, planejamento urbano e design, Olivia tem interesse no ambiente construído, no bem-estar e na participação da comunidade nos projetos de desenvolvimento urbano.