Tradutores: Ana Paula Pires dos Santos, Rachel Riera


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8 de junho de 2020

Dr Patrícia Canelas
Professora, Programa de Desenvolvimento Urbano Sustentável, University of Oxford

Dr Idalina Baptista
Professora Associada, Programa de Desenvolvimento Urbano Sustentável, University of Oxford

Em nome da equipe do Oxford Covid-19 Evidence Service Team,
University of Oxford

Correspondência para [email protected]

 

 

 

 PARECER

A Covid-19 oferece uma oportunidade para repensar o papel da vizinhança no enfrentamento de problemas de qualidade de vida urbana, especialmente para os moradores urbanos desfavorecidos, com o objetivo de facilitar a sustentabilidade justa nas cidades.

 

ANTECEDENTES / EVIDÊNCIA ATUAL

Esta revisão investigou como a Covid-19 tem sido vivenciada de forma desigual em todo o mundo e por diferentes segmentos da população. Enquanto muitos trabalhadores de classe média/alta em países como o Reino Unido parecem estar planejando se mudarem para o interior,  esta opção não está disponível para a maioria dos “trabalhadores essenciais” – sejam eles médicos, enfermeiros e equipe de apoio do Serviço Nacional de Saúde (NHS), trabalhadores da coleta de lixo, trabalhadores que reabastecem as prateleiras dos supermercados, ou os trabalhadores que mantiveram as inúmeras cadeias de suprimentos durante toda a pandemia.

Ao mesmo tempo, na Índia, o retorno ao campo parecia ser a única opção disponível para milhões de trabalhadores migrantes que, privados de seus empregos informais na cidade, não tinham a quem recorrer, a não ser suas aldeias rurais de origem.

Nas favelas da África do Sul, os moradores estão igualmente lutando para conseguir pagar as contas, como resultado de regras rígidas de confinamento. Em todo o mundo, a população urbana desfavorecida, em sua maioria cidadãos de cor e/ou migrantes, tem sido desproporcionalmente afetada pelos impactos da Covid-19. Apesar dessas disparidades, as respostas do planejamento urbano continuam a ser problematizadas com foco nos moradores urbanos mais favorecidos, de classe média, brancos, e dos países desenvolvidos. Parece haver uma grande preocupação em evitar o retorno do uso dos carros (por meio da “pedestrenização”), repensar a estrutura de escritórios e acomodar os turistas de volta às cidades. Essas soluções parecem ignorar as necessidades de muitos moradores urbanos desfavorecidos que vivem em bairros com poucos serviços e sem emprego.

EVIDÊNCIAS EMERGENTES EM COVID-19

A pandemia cria uma oportunidade de redirecionar a atenção para a qualidade de vida em nível de vizinhanças. Nós sugerimos revisitar a ideia de bairros como espaços de uso misto, de renda mista e intergeracionais, promovida nos anos 60 por Jane Jacobs, atualizando-a para refletir as preocupações contemporâneas de uma sustentabilidade justa. Isso inclui a reflexão sobre os princípios da economia circular, por exemplo, o redimensionamento da produção, distribuição e gestão de resíduos alimentares. Também requer um maior foco no fornecimento e renovação de infraestrutura, que pode incluir saneamento básico, comunicação via Internet e celular, e alternativas leves de mobilidade. Adicionalmente é preciso ficar atento às inequidades e exclusões sistêmicas embutidas no contexto urbano, onde os cidadãos de cor e/ou migrantes têm menos qualidade de vida do que seus pares de vizinhanças predominantemente brancas (e mais ricas), principalmente nos países de baixa renda.

O que hoje entende-se como um bairro de uso misto, de renda mista e intergeracional bem planejado será altamente contexto-específico e mediado por processos históricos de exclusão e desenvolvimento desigual característicos de diferentes cidades.

Esses fatores devem ser considerados se quisermos lutar por cidades mais justas e sustentáveis. De qualquer forma, no nível de vizinhança, deve-se procurar melhorar e criar lugares que exijam deslocamentos menores para trabalho, cuidado e lazer.

evidências significativas que mostram que a estrutura e o planejamento urbanos atuais acrescentam um número despropositado de horas extras de trabalho não remunerado para mulheres em todo o mundo. Os sistemas de transporte são projetados tendo em mente os padrões de deslocamento dos homens (isto é, os padrões de deslocamento ‘casa-trabalho’), mas não levam em conta o deslocamento ‘cuidado-trabalho’ que as mulheres fazem para, por exemplo, cuidar de crianças e parentes, comprar alimentos, etc.). Essas falhas de projeto são cada vez mais evidentes nos países de baixa renda, onde as mulheres (e meninas) também têm que cumprir diariamente funções básicas de serviços, tais como buscar água ou combustível para suas famílias.

CONCLUSÕES

Apesar da óbvia necessidade de ações rápidas para proteger a saúde pública nesta pandemia, nós devemos observar que as decisões que tomarmos hoje permanecerão conosco por um longo tempo. Nós argumentamos que ações com foco nas vizinhanças ou bairros oferecem uma escala adequada de análise e ação, ao mesmo tempo em que permitem colocar os mais necessitados no centro do nosso pensamento.

Fim.

 

Declaração de transparência: o artigo não foi revisado por pares; ele não deve substituir o julgamento clínico individual e as fontes citadas devem ser verificadas. As opiniões expressas neste comentário representam as opiniões dos autores e não necessariamente as da instituição anfitriã, do NHS, do NIHR, ou do Departamento de Saúde e Assistência Social. Os pontos de vista não substituem o aconselhamento médico profissional.

AUTORES
Patricia Canelas é Professora de Desenvolvimento Urbano Sustentável, University of Oxford. Ela é arquiteta e urbanista e tem Doutorado em Planejamento pela Bartlett School of Planning, University College London e Mestrado em Arquitetura pela University of California, Berkeley.

Idalina Baptista é Professora Associada de Antropologia Urbana na University of Oxford. Ela tem Doutorado em Planejamento Urbano e Regional pela University of California, Berkeley.